quinta-feira, junho 24, 2010

Definições dos Nove Traços ou Defeitos Principais segundo Gurdjieff



Após analisar detidamente os Traços ou Defeitos Principais definidos por Gurdjieff e confrontá-los com os que outros pesquisadores do Eneagrama destacam, baseados nas descobertas de Ichazo, consegui isolar todas as definições com as quais ele os "retratava" tão magistralmente. Novamente os livros Fragmentos de um ensinamento desconhecido e Gurdjieff fala a seus alunos foram fundamentais para realizar essa pesquisa. Vejamos por Grupos.


Traços Principais dos Tipos 8, 9 e 1 (Centro do Movimento-Questão Nuclear: Esquecimento de Si Mesmos)

Tipos 8
"Existem diversas espécies de consideração. Na maior parte dos casos, o homem se identifica com o que os outros pensam dele, com a maneira com a qual o tratam, com sua atitude para com ele [...] pensa sempre que as pessoas não o apreciam o suficiente [...] Tudo isso o aborrece, o preocupa, o torna desconfiado; desperdiça em conjecturas ou em suposições enorme quantidade de energia; desenvolve nele, assim, uma atitude desconfiada e hostil para com os outros. Como olharam para ele, o que pensam dele, o que disseram dele, tudo isso assume a seus olhos enorme importância. E considera não só as pessoas, mas a sociedade e as condições históricas. Tudo o que desagrada a tal homem lhe parece injusto, ilegítimo, falso e ilógico. E o ponto de partida de seu julgamento é sempre que as coisas podem e devem ser modificadas. A 'injustiça' é uma dessas palavras que servem freqüentemente de máscara a [este tipo de] 'consideração' [interna]. "

Tipos 9
"[...] Sem auxílio exterior, um homem nunca pode se ver. Por que é assim? Lembrem-se. Dissemos que a observação de si conduz à constatação de que o homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de si é um dos traços mais característicos de seu ser e a verdadeira causa de todo o seu comportamento. Essa impotência manifesta-se de mil maneiras. Não se lembra de suas decisões, não se lembra da palavra que deu a si mesmo, não se lembra do que disse ou sentiu há um mês, uma semana ou um dia ou apenas uma hora. Começa um trabalho e logo esquece por que o empreendeu, e é no trabalho sobre si que esse fenômeno se produz com especial freqüência."

Tipos 1:
"Outro exemplo, talvez pior ainda, é o do homem que considera que na sua opinião, 'deveria' fazer algo, quando na realidade, não tem que fazer absolutamente nada. 'Dever' e 'Não dever' é um problema difícil; em outras palavras, é difícil compreender quando um homem realmente 'deve' e quando 'não deve' (fazer algo)."

Traços Principais dos Tipos 2, 3 e 4 (Centro Emocional-Questão Nuclear: Identificação)

Tipos 2:
"Há duas espécies de amor. Um é o amor escravo. O outro deve ser adquirido pelo trabalho sobre si. O primeiro não tem valor algum; só o segundo, o amor que é fruto de um trabalho interno, tem valor. É o amor de que todas as religiões falam. Se você amar, quando 'isso' [a máscara] ama, esse amor não depende de você e não haverá nenhum mérito nisso. É o que chamamos 'amor de escravo'. Você ama até mesmo quando não deveria amar. As circunstâncias fazem-no amar mecanicamente [...]"

Tipos 3:
"Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta 'Quem sou eu?' Estou certo de que 95% de vocês ficarão perturbados... Isso prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e considera perfeitamente normal que ele seja 'algo', e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar a outra pessoa o que esse algo é, incapaz de dar a menor idéia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não sabe, não será simplesmente porque esse algo não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu auto-engano e não se dão conta de que essa fachada só tem um valor puramente convencional. "
Ouspensky lembra que alguém perguntou: "O que é que não compreendemos?" E Gurdjieff respondeu: "Estão de tal modo habituados a mentir, tanto a si mesmos como aos outros, que não encontram nem palavras nem pensamentos, quando querem dizer a verdade. Dizer a verdade sobre si mesmo é muito difícil. Antes de dizê-la, deve-se conhecê-la. Ora, não sabem nem mesmo em que ela consiste [...]."

Tipos 4:
"Qual o papel do sofrimento no desenvolvimento de si?" Ele respondeu: "Existem duas classes de sofrimento: consciente e inconsciente. Somente um tolo sofre inconscientemente. Na vida existem dois rios, duas direções. No primeiro rio, a lei é somente para o rio, não para as gotas d'água. Nós somos as gotas. Num momento uma gota está na superfície, num outro momento está no fundo. O sofrimento depende da sua posição. No primeiro rio, o sofrimento é completamente inútil, porque é acidental e inconsciente. Paralelo a esse rio tem um outro. Neste outro rio existe outra classe de sofrimento. A gota do primeiro rio tem a possibilidade de passar ao segundo. 'Hoje' a gota sofre porque 'ontem' não sofreu o suficiente. Aqui opera a Lei de Retribuição. A gota também pode sofrer por antecipação, tarde ou cedo tudo se paga. Para o Cosmo o tempo não existe. O sofrimento pode ser voluntário e somente o sofrimento voluntário tem valor. A gente pode sofrer simplesmente porque se sente infeliz. Ou pode sofrer por 'ontem' para preparar-se para o 'amanhã'. Repito: somente o sofrimento voluntário tem valor. "

Traços Principais dos Tipos 5, 6 e 7 (Centro Intelectual-Questão Nuclear: Consideração Interna)

Tipos 5:
"É impossível lembrar-se de si mesmo. E não podemos nos lembrar, porque queremos viver unicamente pelo mental... Talvez vocês se lembrem do que dissemos do homem: nós o comparamos a uma atrelagem com um amo [o Ser], um cocheiro [Centro Intelectual], um cavalo [Centro Emocional] e uma carruagem [Centro do Movimento]. Não podemos nem falar do amo pois ele não está presente; de modo que só podemos falar do cocheiro. Nosso mental é o cocheiro... Todos os interesses que temos em relação à mudança, à transformação de nós mesmos pertencem apenas ao cocheiro, quer dizer, são unicamente de ordem mental... A transformação não se obtém pelo mental; se for pelo mental, não tem nenhuma utilidade. Por essa razão devemos ensinar, e aprender, não por meio do mental, mas do sentimento e do corpo... Naqueles que estão aqui se levantou acidentalmente um desejo de chegar a algo, de mudar alguma coisa. Mas apenas no mental. E nada mudou ainda neles. Não passa de uma idéia que têm na cabeça e cada um permanece o que era. Mesmo aquele que trabalhasse mentalmente durante dez anos, que estudasse dia e noite, que se lembrasse mentalmente e lutasse, mesmo esse não realizaria nada útil ou real, porque mentalmente nada há para mudar. O que deve mudar é a disposição do cavalo. O desejo deve estar no cavalo e a capacidade na carruagem. Mas como já dissemos, a dificuldade é que, devido à má educação moderna, a falta de relação entre nosso corpo (carruagem), nosso sentimento (cavalo) e nosso mental (cocheiro) não foi reconhecida desde a infância, e a maioria das pessoas está tão deformada que não há mais linguagem comum entre uma parte e outra..."

Tipos 6:
"O homem, às vezes, se perde em pensamentos obsessivos, que voltam e tornam a voltar em relação ao mesmo objeto, às mesmas coisas desagradáveis que imagina, e que não apenas não ocorrerão, mas, de fato, não podem ocorrer. Esses pressentimentos de aborrecimentos, doença, perdas, situações embaraçosas se apoderam muitas vezes de um homem a tal ponto, que assumem a forma de sonhos despertos. As pessoas deixam de ver e ouvir o que realmente acontece, e, se alguém conseguir provar a elas, num caso preciso, que seus pressentimentos e medos são infundados, elas chegam a sentir certa decepção, como se tivessem sido frustradas de uma perspectiva agradável...
O medo inconsciente é um aspecto muito característico do sono...
As pessoas não suspeitam até que ponto estão em poder do medo. Esse medo não é fácil de definir. Na maioria dos casos, é o medo de situações embaraçosas, o medo do que o outro pode pensar. Às vezes o medo se torna quase uma obsessão maníaca. "

Tipos 7:
"O homem, bem no seu íntimo, 'exige' que todo mundo o tome por alguém notável, a quem todos deveriam constantemente testemunhar respeito, estima e admiração por sua inteligência, por sua beleza, sua habilidade, seu humor, sua presença de espírito, sua originalidade e todas as suas outras qualidades. Essas 'exigências', por sua vez, baseiam-se na noção completamente fantasiosa que as pessoas têm de si mesmas, o que acontece com muita freqüência, mesmo com pessoas de aparência muito modesta [...]."

Fonte: Eneagrama dos Traços ou Defeitos Principais de acordo 
com os Nove "Retratos Psicológicos" de Gurdjieff

sexta-feira, junho 04, 2010

ENEATIPO VI. AMOR SUBMISSO E AMOR PATERNALISTA

      Falta-nos apenas considerar as perturbações da vida amorosa do medroso. Falar de medo é
falar de desconfiança, e existe incompatibilidade entre a desconfiança e o amor – porque falar de
desconfiança é falar de sentir-se ante um possível inimigo, e não é fácil amar os inimigos.
      Se há temor, e porque o temor exige estar em guarda, teme-se a entrega. Teme ser
enganado, submetido, humilhado, controlado; e isto leva também ao autocontrole e à inibição da
corrente da vida em vista de uma excessiva necessidade de proteção.
      Não menos importante que tudo isto é, no entanto, a contaminação do amoroso com as
motivações autoritárias que caracterizam este tipo de personalidade. Digo “motivações”, no plural,
para abarcar com o termo tanto a paixão de mandar como a mais comum paixão de obedecer – ou,
melhor, de ter uma autoridade para seguir.
      Ainda que na apresentação que fiz dos caracteres não assinalei as três variedades de cada
um deles segundo a  protoanálise, faz-se necessário, no caso dos autoritários-suspicazes que
constituem nosso EVI, diferenciar aqueles demasiado inclinados ao culto de heróis, daqueles que
tendem à grandiosidade e a uma visão heróica de si mesmos. No primeiro caso, trata-se de pessoas
muito dependentes, para quem a angústia de escolher e a insegurança com respeito a suas próprias
capacidades os leva a uma excessiva necessidade de pai. No segundo, aqueles que, em rivalidade
com seu próprio pai (às vezes em corpo de mãe) assumem a autoridade e se elevam em relação
aos demais esperando sua subordinação. Assim como a angústia dos primeiros se acalma ao
encontrar protetores, tranqüiliza aos segundos sentirem-se  poderosos e obedecidos – como mostra
uma caricatura de Hitler: ante uma imensa assembléia, rodeado por seu estado maior, em um
estádio em que se ergue uma grande suástica, abre seu discurso dizendo: “Creio poder dizer sem
medo de equivocar-me...”
      É de interesse saber que Hitler, mal-tratado por seu pai quando criança, desenvolveu a
intenção de dar um bom pai ao seu país. Os exemplos extremos (assim como o exagero da
caricatura) nos ajudam a compreender o mais sutil, como no caso de muitos que vão pela vida
oferecendo-se como pais aos necessitados de autoridade. Para alguém que gosta de mandar, a
obediência é uma declaração de amor, para conseguir filhos obedientes, não obstante, terá que se
oferecer como pai benevolente, como o lobo vestido de ovelha na fábula.
      No entanto, não é mais amoroso que o rol de pai o rol de filho, e a maioria dos covardes
passam a vida como orfãozinhos, buscando a proteção de alguém mais forte. Sua posição poderia
traduzir-se em um intercâmbio de admiração e reconhecimento. “Aceita-me como filho e te darei
minha devoção filial”.
      Não é que não existam diferenças de estatura na mente como no corpo, e não é que numa
relação determinada esteja bem que um ou outro tome certo tipo de decisões; porém não é
igualmente certo que a maior parte das pessoas é incapaz de relações fraternais igualitárias? É esta
a perturbação do amor que surge em resposta ao medo, e que é característica das pessoas em cuja
personalidade ele é central. Assim como alguns vão pela vida demasiado orfãozinhos buscando
proteção, existem outros que vão demasiado “paternalisticamente”. Um seduz pela inofensividade; o
outro oferecendo orientação e seu conhecimento de certas verdades. Trata-se, pois, de um pai que
diz como são as coisas, que se apaixona em ser um mestre, e que pede adesão, fidelidade e
obediência não só com os atos, mas também na maneira de ver.
      Independente de ser um problema a desconfiança ou a excessiva entrega a partir de um
sentimento de obrigação ou dever temeroso, existe o problema da ambivalência: existem amor e
ódio; confiança e desconfiança; domínio e, outras vezes, submissão – e uma contínua pergunta
acerca de qual seja o sentimento verdadeiro ou a atitude certa.  Penso que quando Freud definiu a maturidade como um deixar para trás a ambivalência
infantil, disse algo de validade universal, porém especialmente descritivo da situação do EVI, para
quem chegar a amar é destituir-se do ódio inerente à sua situação de inimizade frente a um mundo
fantasmagórico.
      Além da presença da agressão no ambivalente mundo do temeroso, o amor dificulta seu
caráter acusatório que pode fazer-se torturador.
      Não se pode falar de amor a alguém quando se tem a posição autocondenadora
característica da psiquis do EVI. Falta amor pela própria criança interior nesta psiquis que funciona a
partir do controle – enaltecendo o dever – mais que a partir do desejo. Pode-se dizer que,
acusatoriamente, o temeroso se endemoniza: um demônio interior aponta para fora de si dizendo “lá
está o demônio” e os principais acusados são a espontaneidade e o corpo. Tudo tem que passar
pelo controle consciente, porque implicitamente se pensa (na linha de Freud) que se tem um fundo
monstruoso que, se liberado seria algo horrível e incompatível com a vida civilizada.
      No tocante às relações de casal e ao mundo social, aparecem o medo e a agressão em
contínuo intercâmbio. Teme-se a espontaneidade como se fosse agressão e a repressão engendra
agressão verdadeira. Seguramente a quantia de agressão em nosso mundo é, em parte, reflexo da
grande proeminência do caráter EVI em seu seio.
      Com respeito ao mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas, pode parecer que os
EVI não são culpáveis como o são em sua falta para com os outros dois amores. Existe uma
tendência religiosa, uma tendência ao arquetípico, ao mundo ideal, que às vezes se torna um
substituto de valor no mundo da ação, como sugere esta história de Nasruddin na qual um alfaiate
diz que vai entregar um traje para certa festa “se Deus quiser”. O cliente lhe pergunta: “E quando
seria se deixarmos Deus fora do assunto?”. Também o religioso substitui o aspecto emocional
interpessoal. Basta pensar no amor de tantos nazistas por sua mitologia, seus clássicos e a grande
música, em uma atitude segundo a qual “meu Deus é maior que teu Deus, minha cultura é maior que
a tua” ou “estou mais próximo da grandeza que tu”.
      O indivíduo sente-se endeusado pela proximidade a seu Deus, porém nisto existe algo
dessa paixão de endeusamento que é parte do sistema paranóide. Nele a busca de amor se
transforma em anseio de poder, que é por sua vez desejo de identificar-se com o pai poderoso.
Canetti o ilustra em seu personagem que ruge do alto do Sinai com grande juba. De forma
paternalista quer confundir o outro (e seguramente se confunde) em interpretar, como amor aos
demais, sua paixão de lhes impor a verdade segundo o Livro dos Livros. É assim como o amor a
ideologias ou a personagens quase divinos se sente  próximo ao amor a Deus, porém trata-se de
uma espécie de narcisismo vicário; como uma criança que diz à outra de sua idade “meu pai é maior
que teu pai, olhe como é grande o meu pai”.
  

quarta-feira, junho 02, 2010

ENEATIPO III. AMOR NARCISISTA

      Enquanto me pergunto como ou o que é o amor-vão, evoco uma cena de um antigo filme 
sobre as mulheres de Henrique VIII em que uma de suas amantes irrompe na sala do palácio no 
mesmo momento em que o verdugo se dispõe a cortar a cabeça de sua predecessora. Vai 
perguntar-lhe qual é o vestido que deve usar esta noite. O que sobressai na cena  é a monstruosa 
desconexão de um mínimo laço amoroso por sua rival, absorta como está em seu próprio prazer. 
Porém não se trata de um prazer propriamente dito, mas de um produto deserotizado do eros: a 
paixão por sua aparência. 
      Que a vaidade seja um produto da degradação do amor, recorda-me particularmente o 
sonho de uma mulher de caráter vaidoso no qual, em meio a uma grande conflagração mundial, só 
queria que a levassem para comprar um vestido, dando claras mostras de que não lhe interessava o 
que estava acontecendo. Sente-se na cena como uma menininha que quer a si mesma e deseja que 
a queiram por esta distinção. 
      Tal preocupação com a imagem chama-se comumente “narcisismo”, e por isto se poderia 
falar do amor do vaidoso como um amor narcisista. Ainda que o termo “narcisista” tenha sido 
aplicado a diversos tipos humanos, e o interesse por roupas, cosméticos e aparência pessoal seja 
somente uma das manifestações do narcisismo próprio do eneatipo III, tão freqüente como a 
imagem de si como pessoa competente, como alguém que pode fazer, e tem capacidades. 
Antecipando-me um pouco ao tema do capítulo final (sobre os males da sociedade) direi que o 
competitivo afã de eficiência asfixia a própria capacidade amorosa e torna irrelevante a alheia. Uma 
breve historieta de Quino o expressa muito bem: vê-se num primeiro quadro, alguém como um 
empresário, sentado em seu escritório, lendo uma passagem do evangelho que diz que “é mais fácil 
um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Na imagem 
seguinte, ele aparece telefonando para o Museu de História Natural do Cairo para informar-se das 
dimensões de um camelo. Em seguida, encarrega sua secretária de fazer uma chamada para a 
metalúrgica Krupp… somos narcisistas tanto quanto vendemos nossas almas pela glória – uma 
entidade que só existe no olho alheio. É paradoxal que um aparente amor a si mesmo (indulgência 
quanto ao próprio desejo tipo menininha que quer que lhe comprem um vestido) conviva com uma 
incapacidade de valorizar a si mesmo. A própria valorização faz-se dependente de um espectador
que aprova, quer e distingue ou, mais exatamente, a valorização do mundo torna-se um paliativo 
que distrai da vivência de vacuidade, artificialidade e perda de identidade. 
      Trabalhar para a própria imagem distrai de trabalhar para si, e do mesmo modo constitui 
uma anteposição ao natural e espontâneo resultando em uma boa capacidade de controle sobre os 
próprios atos. Porém um excessivo autodomínio supõe um obstáculo para a capacidade amorosa, 
pois implica em uma não-capacidade de entrega. Tão acentuada está a valorização do controle que 
empalidece a do amor, que pode ser sentido como algo secundário em relação ao trabalho ou ao 
êxito, algo sentimental, piegas, de mau gosto. 
      Uma complicação é a competição com o companheiro; outra, o excessivo controle do 
companheiro ou dos filhos; uma terceira, a dificuldade da entrega, que pode manifestar-se a nível 
físico como na caricatura de Jodorowsky: um super-homem sexual elástico com infinitos dedos que 
terminam em línguas, com uma extraordinária capacidade de dar prazer que tanto o absorve que 
não lhe sobra atenção para gozar. Por trás desta incapacidade de entrega está a desconfiança, o 
medo da rejeição, o medo de cair no vazio; uma desesperança de fundo num caráter aparentemente 
otimista: sentir que tem que manter tudo sob controle, cuidar de si mesmo. 
      Para a pessoa cuja imagem exige autodomínio e domínio das situações pode ser que o 
anseio de amor se associe a um anseio de deixar-se dominar, e com razão, pois somente com a 
renúncia do seu próprio domínio e manipulação pode permitir-se ser profundamente tocada. Lembro-
me de ter visto este tema tratado no cinema em Swept away, onde uma mulher desenvolve uma 
paixão intensa por seu companheiro de naufrágio depois que este a seduz. No entanto, passado o 
período em que o amor envolve sacrifício de vaidade, este pode ser reinterpretado como mero 
masoquismo, e igualmente ocorre quando o sacrifício da própria imagem não chega a ser 
correspondido com o amor desejado. 
      O amor narcisista é um falso amor, diferente do amor acariciante do EII já que se expressa 
mais em atos do que na expressão emocional. Associa-se a uma atitude efetivamente mais serviçal. 
No entanto é mais terno que o EI, cuja benevolência é menos sentida. Todavia, ante a frustração, 
torna-se acusador e adota uma posição de vítima agressiva. Não é que reclame como o EIV, pois 
fala pouco o que sente, porém com sua acusação fere a autoestima de quem o frustrou. Expressa a 
sua raiva sem escândalo aparente, porém com palavras cortantes, precisas e afiadas – e 
preferivelmente diante de testemunhas. É nestes momentos, nestas fases da relação, que se torna 
mais notório o fato de que não acredita verdadeiramente no amor. Mesmo quando o recebe não 
pode acreditar nele, pois não poderia ser resultado de sua arte de seduzir e de sua aparência, de 
sua capacidade de deslumbrar e de ocultar os próprios defeitos? A dúvida – mesmo que afastada da 
consciência – alimenta a sedução, e quanto mais se entrega ao cultivo de sua imagem, mais à 
mercê do outro fica e mais se defende dele através do domínio de si e do cultivo da independência. 
Sua independência se nutre da dependência de outros: é o poder que confirma o haver-se tornado 
indispensável. O amor do EIII, portanto sabe fazer-se indispensável e alimenta a dependência.  
      Enganam-se o homem e a mulher plásticos, ao desconhecer sua inumanidade e assim 
poder manter uma ilusão de benevolência. Dominam o papel amoroso, como dominam 
eficientemente todos os papéis; ignorantes do seu sentir, confundem facilmente o sentimento 
imaginado com a realidade. O mesmo rol amoroso pode ser difícil de sustentar, dado que a 
intensidade da paixão por gostar gera intolerância à crítica ante o perigo da frustração. As facetas da 
perturbação amorosa que então aparecem são a frieza e a agressão. 
      O amor ao tu está submerso na própria imagem. É, um amor cimentado na necessidade de 
validação pelo outro; orienta-se a serviço da necessidade do outro e pode-se dizer que o segundo 
serve ao primeiro (quer dizer, a necessidade do outro é primária, e a generosidade, uma estratégia 
sedutora). 
 No mundo das relações em geral, pode-se afirmar que este caráter necessita do outro, por 
que se sente através do seu reconhecimento; é mais amistoso do que a maioria, mais extrovertido, 
mais voltado  para o outro. Irradia alegria, benevolência e adaptabilidade, mas também 
superficialidade. Tanto no plano social como no das relações sentimentais pode-se falar de um amor 
sedutor, já que aparenta estar mais com o outro do que verdadeiramente está, e encobre a forma 
como se serve dele. Uma obra prima na retratação desta situação é o personagem de Becky em La 
feria de las vanidades (A feira das vaidades) de William M. Thackeray.
      O amor a Deus no caráter vaidoso tende a ser eclipsado pelo amor humano em suas duas 
formas: amor a si e ao próximo. Este traço característico seguramente contribui para a secularização 
da cultura norte-americana e do mundo moderno em geral. O sentido prático e o utilitarismo 
predominam sobre os valores universais; admira-se as pessoas porém não se valoriza o abstrato ou 
transpessoal. Quanto a um caminho espiritual trata-se no geral do tipo de pessoa que diria: “Que 
caminho?” Enfim, uma pessoa mundana, como caricaturiza Chaucer no personagem do monge 
elegante e prático em Contos de Canterbury. 

domingo, maio 30, 2010

ENEATIPO IX. AMOR COMPLACENTE

     Neste caso pode-se pensar no amor preguiçoso como o de alguém que não está
plenamente vivo. Um amor tíbio, a “meio-fogo”, em que a pessoa não está inteira; oposto ao amor-
paixão, pode-se caracterizar como um amor fleumático.
      Igualmente cabe dizer que é um amor distraído. Está disposto a dar muito no plano da ação,
mas lhe falta atenção à verdadeira necessidade do outro. Vem à minha mente como instância
concreta desta falta de atenção à verdadeira interioridade do outro o que alguém comentou uma vez
de sua - por demais prestigiosa – analista: “É como uma nana.” Um cuidado bem intencionado onde
falta comunicação profunda, empatia e entusiasmo. Seguramente são os EIX aqueles que mais
freqüentemente dão ao outro aquilo a que se refere a expressão “presente de grego”: um presente
caro com o qual o destinatário não sabe o que fazer nem onde por.
      O amor maternal do EIX pode ser inclusive percebido como invasão. Conheço, por exemplo,
alguém que recorda haver-se sentido asfixiada pelo peito da mãe. Ainda que se trate de uma
recordação real ou de uma extrapolação ao passado de experiências posteriores e inclusive
presentes, seu conteúdo é significativo. A menina sentia-se também sufocada pela pesada colcha
sobre sua cama, recordação em que parece cristalizar seu sentimento de moléstia ante a mãe que
velava por ela em um sentido concreto, mas por quem não se sentia abrigada em um sentido íntimo.
      Pode tratar-se de um amor que não escuta, mas que impõe ao outro sua própria compulsão
de maternidade ou abnegação conjugal. A situação foi comicamente expressada por Woody Alen em
uma imagem de seu filme  Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo...: um grande peito
avança distribuindo leite como um abastecedor e assolando a paisagem.
      O papel de uma pessoa generosa supõe quase uma segunda natureza, mais que um rol
consciente, faz parte da estrutura da personalidade que a pessoa seja abnegada. Mais
inconscientemente que em outros caracteres, trata-se de um amor sedutor pois o indivíduo começou
muito precocemente a sentir que necessitava renunciar seus próprios interesses para ser aceitável.
Talvez não estivesse seguro de sua situação familiar – como no caso de uma criança adotada – e
sentiu que não merece, que não está à altura, que poderia perder seu lugar. Ou foi o sétimo filho de
uma família de dez e, para fazer-se ver e escutar, para sobressair, não encontrou outra maneira
senão a de não dar problemas. Em outras palavras, seu presente aos pais é a negação de suas
necessidades, de sua frustração, de seu clamor ou exigência.
      Já que a adaptação aos desejos e exigências alheios se faz predominantemente através da
conduta, o amor no EIX é – como no caso do EI – um amor ativo, e em seu aspecto aberrante pode
caracterizar-se como abnegação ou benevolência sem a experiência do amor. Tanto na relação
entre os sexos como na maternidade, trata-se de um amor institucionalizado, ajustado a um papel
social costumeiro.
      A desatenção ou desinteresse com respeito à experiência mais íntima do outro pode ser
entendida como uma revanche por sua excessiva deferência para com o outro (no plano do concreto
e prático): uma “agressão passiva”. Outras formas semelhantes são a negligência, os atos falhos, os
esquecimentos e, inclusive, a obediência automática quando esta se torna destrutiva.
      Ao examinar a experiência amorosa do EIX em termos da tríade de aspectos fundamentais
do amor vemos que predomina o amor ao próximo, enquanto que o amor por si mesmo é sentido
como a mais profunda proibição. O amor a Deus tende a ser uma experiência menos proeminente
que o amor humano, ainda que uma forte tendência religiosa possa fazer pensar que às vezes não
seja bem assim. A tendência religiosa deste tipo de pessoas tende a  ser resultado da identificação
com os valores da sociedade e de seu amor ao rito, e pode tratar-se de uma pessoa ativa e às vezes
piedosa e, não obstante, desespiritualizada pois sua relação com o divino não implica em uma
disposição (ou um interesse) à vivência mística.
      Parece, no entanto, que para alguns o amor à atividade artística constitui uma ponte entre o
material e o espiritual: a arte é um fazer, uma atividade (especialmente o esculpir ou pintar, cujo
produto é concreto) e, contudo, um veículo de experiência espiritual e emocional às vezes velada.
Chamou-me a atenção ao revisar diversas biografias, encontrar tanto políticos como artistas entre os
eneatipos IX. Parece que uns são os EIX “propriamente ditos” e, outros IX, aqueles que encontraram
o contrapeso para uma vida excessivamente prática num fazer artístico interiorizante.
      Há muito de mãe no EIX, como se o doador se intensificasse com o papel de mãe; ainda
que em seu momento lhe faltou um profundo amor e se resignou a não senti-lo, é como se quisesse
preencher esta carência com seu próprio dar ao outro, projetando sua necessidade em um terceiro.
A renúncia é altruísta e a necessidade do outro passa a ser a própria; o outro passa a ser, pois, um
substituto de si, de seu ser.
      Os acidiosos (e particularmente um subgrupo deles) se permitem, contudo, uma forma
especial de amor a si mesmos; uma forma particular de amar-se a si próprio que é às vezes um
desvio ou perversão: o amor-comodidade. Por muito trabalho que possa dar o pôr-se cômodo, é um
substituto do verdadeiro amor a si mesmo, uma compensação - através da comodidade, o não-conflito e a suavidade - de uma frustração mais profunda. Expressões deste amor-comodidade são o
álcool, o tabaco e a comida. O afeto, inalcançável, é substituído por tais estímulos em tipos como o
gregário Mister Babbit, com seu charuto.
      A falta de amor a si mesmo no EIX manifesta-se no desconhecimento de suas próprias
necessidades profundas, a desconexão da criança interior, a perda de espontaneidade lúdica, o ter-
se feito adulto antes do tempo e muitas vezes, de forma muito visível, a tomada de
responsabilidades.

quarta-feira, maio 26, 2010

ENEATIPO I. AMOR SUPERIOR

      Escassamente se distingue no uso habitual a ira e o ódio, posto que se chama ódio o oposto
do amor. Segundo isto, a paixão do EI seria um antiamor. Seu caráter manifesto, no entanto, não é
este “contra-amor”, que descrevemos como próprio da violência, o atropelo e a exploração do EVIII.
Já vimos como o EI é um caráter bom – entendendo-o por alguém que não odeia, mas que ao
contrário,  professa o amor.  Assim como o amor do EII é um fenômeno emocional em que falta a ação, o amor do EI está
constituído de intenções e atos em que falta a emoção: um amor pouco terno, duro inclusive, dir-se-
ia, se a proibição da dureza e um empenho consciente em ser terno não o fizessem menos
aparente.
      As personalidades dos eneatipos VIII e I são comparativamente agressivas, só que em um a
agressão (valorizada) está nua e em outro (desvalorizada), negada, e de certo modo
supercompensada , especificamente na vida amorosa e no aspecto amoroso das relações e
situações humanas. Enquanto que o EVIII é um “vilão” explorador que exige indulgência ou
cumplicidade, o EI se põe frente ao outro como doador generoso e, em virtude disto, sentirá que tem
direitos correspondentes.
 Sua agressão não desaparece, no entanto, mas se metamorfoseia em exigência e
superioridade, em um domínio ou controle sobre o outro não menor do que no caso do caráter
avassalador – só que aqui se disfarça (ante os olhos do próprio sujeito) de algo justificado por
princípios impessoais.
      Uma ilustração de Quino explica o profundo auto-engano dos “justiceiros morais” ou
perfeccionistas (para distingui-los dos justiceiros amorais luxuriosos), que disfarçam seus desejos de
exigências justas presumidamente desinteressadas: a justiça, que comumente se personifica em
uma mulher cujos olhos vendados não distinguem pessoas nem interesses, leva uma venda sobre
somente um dos olhos (que comicamente nos recorda o tapa-olho de um pirata, em sua imagem
estereotipada), e com sua poderosa espada corta uma fatia de presunto.
      A imagem do presunto aqui parece contradizer implicitamente essa pretensão
desinteressada dos puritanos, caricaturada por Canetti no retrato de uma vestal incorruptível cuja
boca está dedicada exclusivamente ao serviço das palavras e nunca se corrompe recebendo algo
tão baixo como os alimentos dos que vivem, os comuns mortais.
      A forma de afirmação dos desejos é, então, sua transformação em direitos; e assim como os
desejos do rebelde se sustentam em seu poder bruto, os do virtuoso se apóiam em sua
superioridade moral. A tal transformação do “eu quero” em “tu deves” alude Quino no resto do seu
cartoon, que nos mostra, junto à poderosa mulher gorda (que como paródia da justiça cortava o
presunto), sobre uma cadeira alta, um juiz; um juiz que, por sua estatura e tipo de cadeira que usa,
assim como pela presença de um brinquedo no chão e seu gesto de lamber-se, enquanto come, é a
imagem de uma criança, tão impotente como poderoso é o braço da justiça.
      Aludir a esta perturbação do amor como “amor superior” implica em um “amor inferiorizante”:
o outro, tão beneficiado em aparência por seus atos benévolos, vê-se privado de qualidade moral ou
estatura espiritual; é em certa medida vilanizado enquanto é controlado e exigido.
      A inferiorização do outro se faz através da crítica, seja a crítica explícita e consciente a seus
rendimentos, decisões ou atitudes (“fizeste isto ou aquilo mal” ou “não aprovo tal aspecto de tua
vida”) como a crítica menos explícita de um não se dar por satisfeito ante manifestações do outro
que não alcançam o ideal de excelência perfeccionista.  Entre os três amores, o mais dominante aqui é o amor admiração: o amor à grandeza, ao
ideal. O amor ao próximo vem em segundo lugar, porque é um amor à altura dos ideais, um amor
que se associa ao dever, por ser um amor pobre em  ternura. E, mais postergado, encontra-se o
amor a si mesmo, inconsciente e negado. Sua moral não permite os próprios “desejos egoístas”
assim como não permite os alheios. Pode-se falar neste caráter de uma atitude antivida, em vista do
excessivo controle repressor dos próprios impulsos, do tabu de sua instintividade e da do outro.
Ainda que se trate do amor superprotetor em relação aos filhos ou do amor possessivo em relação
ao parceiro, não só há uma perda de espontaneidade do próprio indivíduo, mas também uma
relação que destrói a espontaneidade do outro, que se vê envolto em um campo repressor invisível.
      Este amor, excessivamente condicional, exige méritos inalcançáveis e perde a
espontaneidade. Desconhece sua destrutividade; assume o papel parental não para apoiar, mas
para interferir com a criança interior do outro.

segunda-feira, maio 24, 2010

ENEATIPO VIII. AMOR AVASSALADOR.

    
      Seguindo a mesma ordem de caracteres do capítulo anterior e abordando agora aqueles da
área superior do eneagrama, vejamos a perturbação do amor nos luxuriosos.
      Se a indiferença emocional constitui um  desamor, seria próprio falar de  atração luxuriosa
mais que de  amor luxurioso como de um  contra-amor.  Conseqüência da sede de intensidade, o
impulso para a união sexual toma lugar mais do que conduz à união íntima entre as pessoas,
enquanto que o luxurioso (tal como disse Stendhal de Don Juan) considera o sexo oposto como
inimigo e busca somente vitórias. “O amor à maneira de Don Juan” – reflete Maurois - “assemelha-
se ao gosto pela caça. É uma necessidade de atividade que precisa ser despertada por objetos
diversos”.
      O amor luxurioso é o amor como no protótipo  do “Don Juan” original (quer dizer, o burlador)
que antepõe seu desejo para o outro: um amor que invade, que utiliza, abusa, explora, e que exige
por sua vez um amor que se confirme através da submissão e do deixar-se explorar. Custa-lhe
receber porque não acredita no que recebe. Porque em sua posição cínica, não acredita no amor do
outro, tem que pô-lo à prova. Põe à prova o  amor do outro, por exemplo desequilibrando-o e
observando-o em situações de emergência, ou pedindo-lhe o impossível, pedindo-lhe a dor e a
indulgência como demonstração de sua sinceridade.
      À parte o aspecto excessivamente avassalador do amor luxurioso, existe um paralelismo de
íntima desvinculação que deriva de sua grande necessidade de autonomia. Posto que se trata de
um caráter duro que anda em guerra com o mundo, é naturalmente difícil que se possa falar de amor no sentido de união ou de relação – exceto num sentido exterior. Recebe mal o amor do outro, por
mais que constitua uma defesa da própria independência; nega o que lhe é dado e nega o próprio
desejo de recebê-lo, posto que significa uma invasão de seu sistema e representa o perigo de sentir-
se débil.
      O amor (de casal) do EVIII não só é invasor, excessivo e avassalador, como também
violento. Não poderia ser menos, já que o caráter violento se revela sobretudo na intimidade. Além
de “castigador” exigente e provocador, é anti-sentimental: busca um amor-contato, concreto, não-
emocional, que dura o que dura o contato; um amor no aqui e agora sem compromissos e com a
negação da dependência, que põe a pessoa em relação com a sua fragilidade, sua insegurança.
      O aspecto pseudo-amoroso está no erótico; também em uma sedução que é como uma
“compra” do outro ou sua indulgência em certas situações. O amor compaixão é negado porque é
incompatível com a notória ênfase do amor-necessidade. O amor-admiração, no entanto, está mais
à mão. Por mais que a pessoa seja competitiva, pode reconhecer e admirar intensamente, sobretudo
quando se trata de modelos fortes. O amor a si, todavia, é o mais forte; o amor ao próximo vem em
segundo lugar, apesar de tratar-se de um ser aparentemente anti-social: é contrário às normas mais
que às pessoas concretas, e não é tanta como parece a diferença entre os eneatipos I e VIII no que
se refere aos impulsos. Em um caso a agressão está muito racionalizada e se percebe como um
serviço de boas causas; no outro se reconhece a agressão como tal, e existe uma espécie de
inversão de valores em que o bom é considerado mal e vice-versa. Porém existem laços humanos
que vão mais além do que são, podem ser mais valorizados do que se considera bom, e a
solidariedade social pode levar a atitudes de vingança, de clamor por justiça pelo outro, comparáveis
a tomar-se a justiça nas próprias mãos quando se trata da própria vida. O amor a Deus ou ao ideal e
transpessoal é o mais débil dos três.
      O aparente amor a si mesmo do luxurioso se reconhece como um pseudo-amor, se visto de
perto; porque na insaciabilidade avassaladora da busca de prazer, vantagem ou poder, a pessoa
não reconhece sua própria necessidade mais profunda: a fome amorosa mesmo. Não é a criança de
peito interior que se satisfaz, mas a um adolescente titânico que se propôs a conseguir o que lhe foi
dado anteriormente, de tal forma que sua própria força em reclamá-lo passa a ser um substituto do
desejo amoroso.

quarta-feira, maio 19, 2010

ENEATIPO IV. AMOR-ENFERMIDADE

  
       Em sua obra Cinco Rostos do Amor, André Maurois usa o termo “amor-enfermidade” para designar a paixão amorosa atormentada que caracteriza o mundo psicológico de Proust. Diz Maurois que, à diferença de Madame de Lafayette, Rousseau ou Stendhal, Proust já não acredita que a violência da paixão “se torne legítima pela qualidade excepcional dos seres que são seus objetos”. E acrescenta: “Veremos que considera o amor-paixão como uma enfermidade inevitável, dolorosa e fortuita.”
     Comentando esta observação à luz da psicologia dos eneatipos, diria que tanto o amor do EII como do EIV são apaixonados, com a diferença de que o orgulhoso acredita, exalta e idealiza sua paixão e o invejoso (que não crê em si mesmo) apenas a sofre.
     Pode-se dizer que a pessoa invejosa é propensa ao amor. A inveja é um sentimento carencial, uma voracidade do outro, uma espécie de canibalismo amoroso que se autofrustra por seu excesso. Este excesso leva à frustração por dois motivos: porque pede mais do que lhe é dado esperar e porque molesta o outro com sua insistência. A situação pode ser comparada à do bebê que morde o peito da mãe em seu afã; a frustração que o levou a mordê-la em primeiro lugar se soma à produzida por uma mãe dolorida que lhe faz cara feia ou o rejeita.
     A exigência excessiva é resposta à uma frustração anterior, naturalmente. É como se estivesse dizendo: “Dá-me porque não me deste o suficiente, compensa-me! Existe nesta exigência de compensação um matiz de vingança. Para um adulto que não se desconhece completamente, a situação se complica porque se sabe “mordedor”, e aquele que tem uma imagem negra de si mesmo – alguém que percebe a carga agressiva que existe em seu amor – não se sente digno e antecipa a rejeição. É algo bem conhecido que a antecipação da rejeição se torna realidade. Um conhecido chiste o explica: alguém se dirige para a casa de um amigo para pedir-lhe o violão emprestado. Já a caminho da propriedade vizinha, pensa que pode ser uma má hora pois talvez seu amigo esteja comendo. Nos poucos minutos de caminhada, fantasia que não só seu amigo ficará aborrecido como terá pouca boa vontade para emprestar-lhe o instrumento. Um violão é uma coisa muito pessoal para alguém que tenha se dedicado tanto a tocá-lo... Depois de ter batido na porta, o amigo o recebe e sorrindo lhe pergunta acerca do motivo de sua visita. Ele não consegue evitar responder: “Vá para o diabo com seu violão!”
     Mesmo sendo o gesto da inveja um excessivo pedir, demasiada exigência, esta necessidade do amor alheio se baseia em uma correspondente incapacidade de valorizar-se ou querer a si mesmo; a pessoa depende exageradamente do outro não por simples desconexão – como no caso do EIII – de seus valores, mas por uma desvalorização mais presente que chega a extremos de uma auto-agressão consciente ou de ódio a si mesmo, um sentimento de ridículo. Quando se fala de uma paixão amorosa, é este o tipo de amor o que se tem presente; o amor-enfermidade, como disse Maurois.
     Pode-se dizer que a intensidade da importância que se dá ao amor o converte numa grande paixão; porém mais que paixão poderia chamar-se enfermidade, por seu elemento de dependência e insaciabilidade. Uma dificuldade adicional para a pessoa que tanto necessita carinho se sinta querida, além de sua auto-invalidação é a invalidação do sentimento do outro: “Se tu queres a mim, que sou uma porcaria, que tipo de pessoa és tu? Se podes enganar-te tanto, tua necessidade deve ser tão grande quanto a minha.” A pessoa não pode conceber-se querida e não se permite a satisfação ainda quando poderia dizer-se que a conseguiu, embora isto seja difícil porque é muito característico deste tipo ver o que falta mais do que o que possui. O amor não é suficientemente perfeito, ou suficientemente exaltado ou suficientemente romântico para chegar a tocar a sua sensibilidade. Um amor tão suscetível de ser ferido ou frustrado se contamina de ressentimento precisamente pela frustração ou a necessidade.
     O EIV é um caráter demasiado serviçal, sempre à disposição, adaptável, inclusive obsequioso, empático, ajudante, sacrificado, que agüenta até níveis masoquistas a frustração e o sofrimento, porém ao mesmo tempo cobra-se ou se compensa por todo o seu sacrifício através de uma exaltação de seu próprio desejo frustrado, que se torna voracidade inconsciente.
     O amor dos invejosos torna-se mórbido pela intensidade de sua sede do outro, por sua interpretação pessimista das situações e sua tendência à autofrustração. Tão característica como isto ou mais é a tendência a pedir por meio de um “pôr-se doente”. A associação da atitude romântica com a enfermidade é suficientemente reconhecida para que tenha graça para qualquer um o chiste que encontrei tempos atrás em uma revista: um médico inclinado sobre o leito de um enfermo, dizia à sua mãe: “Seu filho é um poeta muito doente.”
     Quanto menos permitido é o pedir e mais vergonhoso o desejo, maior é a necessidade de atrair o objeto do desejo “inocentemente”, quer dizer, sem culpa, através da intensificação da experiência – intensificação histriônica, pode-se dizer – da necessidade e sua frustração. Quanto mais proibida é a exigência, mais necessário se faz para este caráter exigir atenção e cuidados, aparentemente sem pretendê-lo, seja através do sofrimento, de seu papel de vítima ou de sintomas físicos e dificuldades variáveis.
     Às vezes, chama-se a isto, “chantagem emocional” e observa-se não só entre amantes como entre pais e filhos. A sedução através da debilidade e da necessidade é para nós um recurso feminino tão conhecido como a sedução das irresistíveis, que um par de gerações atrás se expressava em desmaios. Não é, no entanto, mais que uma amplificação do pranto com que toda criança chama sua mãe pedindo-lhe a satisfação de suas necessidades ou socorro.
     Contudo, é necessário distinguir o lamento da verdadeira compaixão por si mesmo. Apesar de sua busca de compaixão e sua queixa de não encontrá-la o EIV dificilmente a sente por si e nem sequer lhe resulta fácil recebê-la. Nem para receber coisas boas sente-se com direito, pois não só não se ama, odeia-se, desvaloriza-se e se rejeita.
     O amor transpessoal, mais além do eu e do tu, pode-se dizer que não está caracteristicamente na esfera do religioso nem da do bem tanto como na esfera da beleza. Os valores superiores com os quais a pessoa se conecta são principalmente o amor à arte e o amor à natureza. Talvez o amor a um Deus pessoal se complique com o não se sentir merecedor, porque a evocação do divino só intensifica a dor da culpa. Além do mais admirar é coisa muito problemática para os competitivos.
     O erótico pode ser veementemente perseguido, pois é algo que tira o indivíduo do ordinário e acalma sua sede de intensidade; porém existe neste caráter uma dificuldade de entregar-se ao prazer, e também ao outro. Tanto é assim que Wilhelm Reich interpretou o masoquismo como expressão de uma inibição orgástica. Também é proeminente a expressão do amor-dar, tipo ágape, que se manifesta como orientação ao serviço, defesa dos oprimidos e empatia. Os que necessitam de piedade não sabem recebê-la, porém se apiedam facilmente dos demais.

terça-feira, maio 18, 2010

ENEATIPO V. DESAMOR

  
      Eu disse que existem caracteres aparentemente mais amorosos que outros, e comecei pelos que o são em grau mais notório. O que comentarei na continuação é um dos que parecem ser menos amorosos. Novamente, se o amor é um atributo da essência do ser humano – de seu eu verdadeiro ou núcleo central de seu ser - , é algo independente do caráter, seja este mais dadivoso, disponível e afirmador do outro, ou mais distante, duro ou crítico; trata-se de diferenças de programação ou de diferenças na estratégia interpessoal e, portanto pertencentes ao mundo do pseudo-amor mais que ao amor verdadeiro. Não obstante, o fato de que o esquizóide pareça menos amoroso vale tanto para ele que o vive a partir de fora como para si mesmo: enquanto que para o grupo dos histeróides, da ala direita do eneagrama, é mais fácil enganarem-se com respeito à sua própria capacidade amorosa, ao mais esquizóide dos caracteres é mais difícil que a qualquer outro se enganar, e pode sofrer agudamente sua incapacidade de relação verdadeira com o outro.
     Por mais que em sua tendência à autoculpabilização, o autista desconheça a medida do amor espontâneo em sua psiquis – do ponto de vista do ideal do que deveria ser ou fazer -, é também certo que sua programação se volta contrária a este impulso de unificação com o outro que Platão nos oferece em O Banquete, como resposta ao que possa ser o amor.
     O caráter esquizóide é contrário a este impulso de unificação com o outro, tanto que alberga uma verdadeira paixão por evitar vínculos. Se o amor supõe um interessar-se pelo outro, o esquizóide “autista” é aquele que não se interessa. Não só expressa pouco o seu carinho, como parece uma pessoa mais fria que as demais, mais apática, mais indiferente.
     Gosta de receber, sim, porém não pede, porque aprendeu que pedir pode molestar e teme que sua voracidade o leve a uma frustração maior do que a auto-imposta frustração de ser paciente. Inclusive o seu desejo de receber amor está amortecido já que se acomodou vivendo com o menos possível, com as mínimas necessidades que representem dependência de outros e com a necessidade de dar para receber. Mais ainda, tem dificuldade em saber o que recebe porque emocional e implicitamente não acredita no amor mais do que o EVIII, e tende a pensar que aqueles que o manifestam, fazem-no por seus próprios interesses, conscientes ou inconscientes. Ou seja, não acredita que seja digno de receber amor porque não se sente suficientemente valioso ou porque seu próprio desinteresse pelo outro o leva a sentir que não dá o suficiente.
     Existe, portanto, uma não-entrega ao amor, não-entrega ao outro, não-entrega à vida e um super controle do medo à entrega, da ameaça que significa a necessidade do outro. Em sua excessiva intolerância pelas exigências ou expectativas alheias, vive o desejo do outro principalmente como uma limitação.
     A mais subdesenvolvida das formas do amor é naturalmente o amor maternal, dadivoso e compassivo; o amor ao próximo se vê eclipsado pelo amor aos ideais e a preocupação por si mesmo. Existe pouco sentimento de camaradagem, pouco sentimento de comunidade ou fraternidade com os demais mortais. É também pequena a disponibilidade para com os filhos, que são vistos – mais do que no caso de outros caracteres – como um peso, um impedimento. Outras vezes, entretanto, dá-se uma projeção muito intensa da própria “criança interior” abandonada com o filho, e isto leva à super proteção e a um apego que se expressa em uma relação muito limitadora para este.
     Egoísta, o avaro também o é consigo mesmo; não se dá satisfações, pressiona-se e sente que deve ter méritos para dar sentido à vida.
     No amor de casal, os problemas derivam de sua escassa disponibilidade, da exigência de não ser exigido, do isolamento e da escassa empatia. São difíceis as decisões de convivência e matrimônio – que implicam na perda da privacidade e do controle exclusivo sobre a própria vida. A sexualidade pode não ser intensa e percebida como uma exigência a mais.
     O amor a Deus, cujas exigências se fazem menos presentes que as do próximo, passa a substituir em certa medida o amor humano, ainda que o mesmo amor a Deus se debilite se não está apoiado em uma experiência suficiente do amor humano e do amor a si mesmo. Apesar disso, resulta mais fácil, menos conflituoso relacionar-se com um objeto ideal. Correspondentemente, neste caráter está mais desenvolvido o amor-admiração (amor de filho para pai) que a generosidade.

sábado, maio 15, 2010

ENEATIPO VII. AMOR-PRAZER

      
      Resulta oportuno uma vez mais continuar nossa exposição com o sétimo eneatipo, já que se 
trata igualmente de um caráter sedutor e carinhoso. Só que sua forma de sedução é um pouco 
diferente e diferente é também sua forma de amar. A pessoa auto-indulgente necessita antes de 
tudo de um amor indulgente e, como aprecia não ser exigido e que não sejam postos limites, 
também oferece ao outro permissividade; tanto é assim que la Bruyére, em sua contemplação dos 
caracteres humanos, chamou a atenção sobre um que parece empenhar-se em cultivar no outro 
seus vícios e enaltecê-los. 
      Se o amor ideal que o orgulhoso tanto busca como oferece é um amor-paixão, o ideal de 
amor do guloso é mais suave, tranqüilo e a salvo de problemas. Um amor agradável que busca o 
agrado e que poderia chamar-se um “amor galante”, em associação com a vida cortesã da época 
de Fragonard e a corte de Luis XIV. Vem ao caso citar o que disse Hipólito Taine ao comparar esta 
forma de amor com aquela exaltada por Boccaccio: 
      “Boccaccio leva a sério o prazer; a paixão para ele, além de física, é veemente, 
constante inclusive, freqüentemente rodeada de acontecimentos trágicos e assaz medíocre 
para divertir. Nossas fábulas são alegres de maneiras muito distintas. O homem busca nelas 
a diversão, não o desfrute, é jocoso e não voluptuoso, guloso e não glutão. Toma o amor como um passatempo, não como uma embriaguez. É fruto bonito que colhe, que saboreia e 
que abandona."
      Pode-se dizer que a psicologia do EVII tende a uma confusão entre  o amor e o prazer – e 
portanto entre o amor e a não interferência na satisfação dos desejos. Porém a expressão amor-
prazer não evoca plenamente o fenômeno do amor tão leviano deste caráter amável e jovial que 
nem quer ser um peso para o outro, nem receber o peso de ninguém. Bem se poderia falar 
alternativamente de um amor-comodidade, o que nos convida a evocar tanto o aspecto grato e 
aprazível desta forma de vida amorosa como de sua limitação. 
      Uma ilustração da expressão menos que ideal de tal amor-comodidade nos é proporcionado 
por um chiste carioca – o que me parece apropriado em vista do espírito guloso do Rio de Janeiro -: 
uma mulher indignada reclama ao seu marido dizendo-lhe que a empregada está grávida. O marido 
contesta: “Isto é problema dela.” A mulher insiste: “Mas você a engravidou!” Ele replica: “Isto é 
problema meu.” “E eu, como fico?” Torna a mulher. O marido, despreocupadamente responde: “Isto 
é problema seu!” 
      Que um buscador de prazer bata em retirada diante da pessoa ou situação que anuncia 
aborrecimentos, compromissos, obrigações sérias ou restrições é, seguramente, um dos fatores que 
torna o amor guloso um amor instável, sempre exploratório: sabemos que tudo isto aumenta à 
medida que as relações se prolongam; porém não é o único fator, posto que a personalidade do 
guloso é, por si, curiosa e exploratória, e sempre o distante lhe parece mais atrativo que o que está  
próximo. 
      Precisamente a dificuldade de satisfazer-se no aqui e agora do mundo real é outro problema 
importante na vida amorosa dos “orais otimistas”, que constantemente os empurra para o ideal, o 
imaginário, o futuro, o remoto. Pensam que é o desejo o que os aliena do presente, porém é 
duvidoso que isto seja mais que uma aparência subjetiva: mais seguramente é uma implícita 
insatisfação que motiva sua contínua busca pelo diferente. E dificilmente o ideal por uma suavidade 
completamente indulgente que busca o guloso pode acontecer na experiência real pouco além do 
período de encantamento de uma relação nova. A vida tem seus problemas e, no mundo físico, todo 
cômputo deve tomar em consideração o atrito. O amor-prazer busca relações sem atritos  e sabe 
encontrá-las, só que em escassa medida podem chamar-se relações. Isto é ilustrado 
eloqüentemente por desenho de William Steig que apesar de não se referir ao amor em si, trata da 
relação humana.  
      Existe no EVII uma atitude amistosa generalizada. Trata-se do indivíduo que vai ao 
restaurante e, rapidamente conhece o garçom ou a cozinheira; conhece também as pessoas do 
mercado e entra em conversação facilmente. Sua atitude igualitária contribui para isto e é parte de 
seu caráter amável, simpático e sedutor. Qual é a base disto? Camaradagem? Existe um aspecto . exploratório e, ademais, uma busca de novidades e de experiências, uma busca de possibilidades, 
de marketing, por parte de quem está sempre procurando promover-se. Lembra o homem de 
negócios que busca um mercado, e seja quem for que encontre, quer conhecer a situação para ver 
se descobre oportunidades. Também destaca o aspecto de jogo: como é uma pessoa lúdica, 
aproxima-se do outro como faz uma criança em relação a alguém com quem pode brincar. 
      Pode-se entender a base desta não-relação a partir da informação que nos oferece o 
eneagrama sobre este eneatipo; um eneatipo (EVII) que se relaciona com os anti-sociais (EVIII) e 
também com os ensimesmados e distantes (EV). Na medida em que o guloso se parece com o 
luxurioso, vai pela vida como Don Juan, em busca de uma presa, e por mais que se apresente como 
um galã, leva dentro de si o aproveitador e, também, um esquizóide mais interessado em si mesmo 
do que no outro. Esta outra forma de egoísmo seria inaceitável para os demais se não fosse 
compensada por uma dose ao menos equivalente de generosidade galante. 
      Assim como o guloso é, em geral, um especialista em tornar aceitáveis os seus desejos, 
também é certo que no terreno específico do amor uma pessoa com este caráter tem pouca 
dificuldade em fazer-se conceder seus gostos – mesmo quando representem sacrifícios e saiam do 
convencional, como é o caso da infidelidade. Lembro-me de uma historieta de Quino que 
representava um personagem com características fisionômicas típicas de um charlatão, em seu 
consultório de médico rodeado de diplomas. Uma anciã que tinha vindo consultá-lo 
(presumidamente por um mal cardíaco)  é testemunha das instruções que dá para sua secretária: 
“Por favor, se minha mulher ligar, diga que se comunique com minha senhora para que combinem 
com minha esposa o aniversário dos meninos.” Na vinheta seguinte se vê que a velha senhora 
passou muito mal. 
       Na discussão que se faz dos traços do caráter narcisista no DSM-III põe-se em relevo o 
entitlement, que poderia traduzir-se por um sentir-se com direitos de talento, direitos de 
superioridade. Porém, a superioridade que o EVII persegue em uma relação amorosa é diferente 
daquela dos que vão pela vida como pessoas importantes e assumem um papel de autoridade. 
Neste caso trata-se de uma importância mais sutil: não é que espere ser obedecido, mas escutado e 
reconhecido como alguém que está inteirado. O homem pode esperar que a mulher seja seu público 
por exemplo e, igualmente, ocorre com um pai em relação ao seu filho. Correlacionado à 
necessidade do charlatão de ser ouvido está o fato de que naturalmente não sabe ouvir, e pode ser 
que ele mesmo não se aperceba disto, já que oferece grande empatia em sua atitude atenta. 
Também em matéria de paternidade, o amor dos auto-indulgentes é menor do que aparenta ser, 
devido ao seu talento persuasivo e seu encanto. Um pai pode apenas estar presente em seu lugar e 
fazer-se querer, no entanto, através de presentes e sorrisos, de modo que seus filhos não se 
apercebam de sua ausência até estarem crescidos. Neste caso, parte de sua oferenda amorosa 
será a permissividade – só que às vezes os filhos chegam a percebê-la como um não querer 
incomodar-se e intuem que se sentiriam mais queridos se lhes fossem impostos limites.  Vejamos 
agora como é, nos encantadores, a distribuição da energia psíquica entre as três 
correntes amorosas que vimos anteriormente. 
      A hierarquia entre os três amores é, no geral, um pouco diferente do caso dos orgulhosos. 
Enquanto que naqueles o amor pelo divino se vê praticamente eclipsado pelo amor a si mesmo e o 
amor ao outro, nos gulosos acontece mais freqüentemente uma orientação religiosa e,  ainda 
quando este não é o caso, pode-se falar de um amor ao ideal que corresponde ao âmbito do amor 
ao divino na forma mais ampla que entendo este termo. 
      Precisamente a religiosidade ou os afãs espirituais podem constituir um escape para as 
pessoas com este caráter, pois não apenas as leva a desatender o imediato e o possível em troca 
do remoto e impossível, como também por uma dificuldade em matéria de disciplina e uma limitada 
capacidade de encarar-se com as incômodas profundidades da própria psiquis, freqüentemente os 
torna  amateurs que se amparam na espiritualidade sem entrar num processo de transformação 
profunda. 
      Com respeito ao amor por si mesmo, a auto-indulgência do EVII é algo como a de um pai 
acomodado e sedutor mais do que a de um bom amigo de si mesmo. Porém naturalmente o amor-
prazer é um intento de ressarcir-se ante um sentimento mais profundo de privação (como indica o 
movimento entre o EV e o EVII no eneagrama). Busca-se o prazer justamente para fugir do 
incômodo psicológico da angústia e da culpa e, na mesma medida, foge-se do próprio desamor e da 
auto-rejeição. 
      O amor-dar, como já explicado, é neste caráter, tanto como no anterior, elemento de 
sedução. Pode-se dizer, portanto, que é uma amabilidade e uma disponibilidade estratégicas. Bem 
as pintou La Fontaine em suas fábulas da raposa, que se mostra sempre amável com os objetos de 
seu desejo. Podemos também falar de um amor oportunista. Como ilustração deste tipo pode servir 
o título que um humorista deu a um de seus livros: Al patrimonio por el matrimonio. (Ao patrimônio  
pelo matrimônio.) 
(Cláudio Naranjo)

ENEATIPO II. AMOR PAIXÃO

     Entrando diretamente no tema deste capítulo, é apropriado começar a descrição dos
caracteres pelo segundo dos eneatipos, já que, assim como os orgulhosos estão entre os que
parecem mais inocentes de todo pecado na apreciação ordinária e também, são os que menos
problemas têm em serem amorosos. Justamente constituem o mais “amoroso” dos caracteres.
      O fato de que alguns caracteres sejam mais ou menos “amorosos”, no entanto, não significa
que têm menor ou maior capacidade de amar no mais profundo dos sentidos. Partamos da
premissa de que a saúde mental – e a capacidade de amar que traz consigo – sofre interferência
das patologias do caráter de equivalente seriedade. É natural que os caracteres sedutores se
mostrem mais amorosos, já que neles está em primeiro plano a falsificação do amor.
      Ainda que os orgulhosos pareçam não ter problemas em serem amorosos não significa que
não tenham problemas no amor. Uma característica diagnóstica da personalidade histriônica (forma
mais aberrante do orgulho) é sua instabilidade amorosa, ligada por sua vez à instabilidade e à
superficialidade de suas tão manifestas e intensas emoções.
      Estou seguro de que chegam à psicoterapia menos orgulhosos do que pessoas de outros
caracteres (à exceção dos luxuriosos). E os motivos mais comuns para que recorram à ajuda
profissional são, justamente, os problemas com o amor.
      Como pode ser assim, dada a sua disposição carinhosa? Quiçá pelo alto preço que
representa seu carinho, preço que manifesta sua condicionalidade. A pessoa com este caráter
sedutor se esmera em oferecer um amor maravilhoso, único e extraordinário. Suas aparentemente
reduzidas exigências são também extraordinárias, particularmente no que concerne ao amor.
      As necessidades neuróticas não se saciam no mundo real, porque sua natureza passional é
a de um poço sem fundo. Mesmo na situação ideal de encontrar-se com um amor verdadeiro, a
pessoa orgulhosa pode ser suficientemente difícil a ponto de colocar sua relação em crise, pode ser
demasiado invasora, por exemplo, ou demasiado zelosa, ou muito infantil, irresponsável ou
inconseqüente. Tanto é assim que, junto ao amor aparecem necessidades neuróticas e traços
egóicos do outro. O orgulhoso espera sempre um leito de rosas, e as críticas, a impaciência, o
aborrecimento e outras reações naturais ante seus próprios defeitos constituirão não só feridas à
sua sensibilidade como também feridas à sua imagem: idealizada, maravilhosa, sempre deleitável e
incomparável. Tais frustrações, naturalmente serão fatores de desenamoramento e pouco interessa ao caráter apaixonado do eneatipo II uma relação sem enamoramento. Daí o padrão característico
de uma busca apaixonada do amor que vai de relação em relação – terminando sempre em
desencanto ou aborrecimento; o suficiente para que seu desejo de amor não satisfeito busque novo
objeto.
      Não só as frustrações, conscientemente reconhecidas ou não, da vida cotidiana contribuem
para a deterioração das relações amorosas: também entra em jogo aquilo que é tão evidente na
vida daquele notável amante da história: Jacobo Casanova. O próprio relato de suas aventuras
inumeráveis nos faz presente que não é somente o fracasso no amor o que o impulsiona para a
aventura, mas o fato de que não busca uma vida amorosa, mas a conquista em si. Quem alimenta
seu orgulho de triunfos amorosos não se satisfaz por muito tempo com a demonstração de que o
objeto de seu interesse acaba por se lhe render. Uma vez conseguido, passará a interessar-se em
re-confirmar seu atrativo ampliando o campo de suas conquistas.
      Em ambos os casos, no entanto, o indivíduo sofre de uma espécie de superdesenvolvimento
do amor. A relação entre os sexos constitui uma paixão tão intensa que passa a eclipsar outros
interesses na vida, com o resultado de que a pessoa parece em certo sentido não ter vida própria e
inclinar-se para sua única vocação: a de sua família. Esta última estaria muito bem, se não fosse
por esta aparente vocação de abrigar, no fundo, uma sede amorosa que se disfarça
excessivamente em um dom.
      Naturalmente nada disso seria possível se não fosse porque o amor-necessidade na pessoa
orgulhosa se vê efetivamente encoberto pelo amor-dar. O auto-engano é suficientemente perfeito
para que o indivíduo se satisfaça com seu próprio dar (mais do que no caso dos outros caracteres).
Independentemente do que possa receber do outro, seu próprio dar (que implica “receber” a
necessidade do outro) confirma sua auto-imagem de doador: imagem de grande amante, de grande
mãe ou de pessoa com sentimentos muito delicados.
      Até agora falei predominantemente do amor entre os sexos, que é o campo do amor onde o
eneatipo II tende a especializar-se e onde concentra sua forma de dar e encobre sua necessidade
de receber. Terreno importante pode ser, também, a relação materno-infantil, propícia para quem se
nutre tanto de sua própria dadivosidade como da necessidade alheia.
      Para terminar, observemos o desequilíbrio particular em que se expressam, neste caráter,
os três amores que contemplamos no começo do capítulo.
      Já de início é claro que o amor a Deus a ele interessa relativamente pouco. Ainda além do
amor entre os sexos, sua orientação é mais interpessoal que transpessoal. Existe pouco espaço
para “objetos ideais” nesta personalidade tão amante do contato, para quem o amor se assemelha
ao erótico e à expressão emocional da ternura. Sua vida amorosa está plena de uma combinação
de amor ao próximo e amor a si mesmo – só que nesta combinação, como vimos, o primeiro
mascara o segundo.
      Em meu livro  Enneatype Structures   propus para este fenômeno tão central no EII (que
parece tudo dar e nada receber) a expressão “generosidade egocêntrica”. Talvez possamos dizer que
o amor por si mesmo é o maior e o amor ao outro é sua transformação – o resultado de um
espelhamento pelo qual a própria necessidade se projeta em parte no outro e, em parte,
simplesmente é negada ou minimizada enquanto que se enfatiza o dom de si. Em uma escala real o
amor ao próximo se situaria em segundo lugar, entre o amor a si mesmo e o amor a Deus, porém é
ele que chama verdadeiramente a atenção. Tanto é assim, que em muitos livros norte-americanos
acerca do eneagrama da personalidade que hoje circulam, designa-se este caráter como helper,
quer dizer “aquele que ajuda”. No entanto, sua capacidade incomparável de fazer passar sua
necessidade por abundância de coração desinteressado é o primeiro obstáculo em seu progresso
espiritual e terapêutico.
      Um  cartoon em que se vê uma negra com um cupido que deve ajudá-la a colocar o
explorador num caldeirão esclarece vivamente o fundo egocêntrico do amor sedutor, que tanto pode
se manifestar em uma “vampira” ou através de um caráter doce e infantil como o que Dickens
descreve em sua novela autobiográfica David Copperfield. A pequena Dora, a quem o escritor se
prendeu ao sentir nela o eco do caráter de sua mãe, só proclama que quer ajudar o seu adorado
cônjuge, porém é manifesta a sua incapacidade a respeito. Em seu interesse por ajudá-lo, acaba
por devorá-lo como o amor de uma vampira. Em ambos os casos, o outro se torna escravo de um
grande anseio de amor que precisa ser requisitado.
(Cláudio Naranjo)


segunda-feira, abril 26, 2010

Os 10 mandamentos do eneagrama

1) Procurarás o Eneagrama apenas quando sentires necessidade de conhecer a ti mesmo e tiveres experimentado o desejo de crescer e ser mais feliz!

2) Utilizarás o Eneagrama como um instrumento de autoconhecimento! – deixa que as pessoas a quem queres bem e que gostarias que também conhecessem este método, façam a sua experiência de auto-descoberta! Não rotularás ninguém!

3) Cultivarás o teu crescimento pessoal, por teres entendido o Eneagrama como a prova de que podes ser diferente e por saberes que, se não podes ter a liberdade de ser aquilo que queres, podes ser livre com aquilo que és! Nunca usarás o Eneagrama como ‘bengala’ para justificar tuas atitudes!

4) Farás da aceitação daquilo que és a meta maior do teu trabalho de crescimento, pois aí está o segredo primeiro da felicidade, se entenderes que amando tuas sombras elas serão redimidas!

5) Usarás os conhecimento do Eneagrama para compreender melhor as outras pessoas e amá-las mais, por entenderes que cada uma é diferente e por saberes as razões de suas limitações!

6) Respeitarás a pessoa humana incondicionalmente, não importa o ‘Tipo de Personalidade’ que ela seja, pois cada pessoa é sagrada e única e nada te dará o direito de fazeres julgamentos morais ou comparações!

7) Guardarás um respeito sagrado pelo ritmo de crescimento de cada pessoa, sabendo que o Eneagrama não te permite fazer cobranças nem atacar ninguém!

8) Entenderás que o bom relacionamento interpessoal depende muito mais do amadurecimento do que do ‘Tipo de Personalidade’ e que qualquer relacionamento é possível desde que haja abertura, amadurecimento e acima de tudo amor!

9) Recordarás todos os dias que o Eneagrama não faz milagres e que o conhecimento não dispensa o caminho pessoal que precisas fazer com teus próprios pés, assim como um bom mapa não te dispensa de empreender a viagem para chegar onde queres!

10) Lembrarás a cada momento de tua vida que és humano e, como tal, tens limitações e és sujeito a problemas, dificuldades e recaídas... consciente de que a pessoa madura não deixou de ter problemas mas apenas vai aprendendo a lidar com eles... e acima de tudo experimentarás que Deus que te conhece, te aceita e te ama do jeito que és!


Domingos Cunha, CSh.

domingo, abril 25, 2010

Eneagrama tipo 1 parte 2

Eneagrama tipo 1

Eneagrama tipo 9

Eneagrama tipo 8

Eneagrama tipo 7

Eneagrama Tipo 6

Eneagrama tipo 5


Eneagrama tipo 4

Eneagrama tipo 3

Eneagrama tipo 2

Introdução ao eneagrama 2

Introdução ao eneagrama

quarta-feira, março 10, 2010

Síntese sobre os centros

O Eneagrama propõe três centros de energia ou três tipos de inteligência: emocional, racional e prática. Cada pessoa possui os três centros mas, na infância, um deles foi reprimido, outro foi supervalorizado e o terceiro passou a ser usado de forma secundária, como sustentáculo do mais desenvolvido. Em cada centro predomina uma habilidade específica e uma energia própria. Simbolicamente podemos ligar cada energia ou inteligência a um determinado centro do corpo: a inteligência emocional se relaciona com a energia do coração; a inteligência racional se liga com a cabeça; a inteligência prática se refere ao centro visceral (baixo ventre, onde ficam 'sediadas' as energias primárias da sexualidade e da alimentação).

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: 2 - 3 - 4
- Predomina a habilidade para lidar com relacionamentos.
- A energia principal é sentimento e emoção.
- São tipos muito sensíveis: captam os sentimentos dos outros com precisão e facilmente se sentem feridos.
- A sensação profunda é de não serem amados (carência afetiva).
- Buscam conquistar a atenção e amor dos outros para compensar essa sensação dolorosa:
     *O tipo dois tenta agradar as pessoas para ser amado por elas.
     *O tipo três busca o êxito e o sucesso para ser elogiado... e 'interpreta' como ser amado.
     *O tipo quatro dramatiza seu sofrimento para atrair a compaixão dos outros.
- Cada tipo orienta a energia próprias do seu centro de um modo diferente:
     *O tipo dois orienta para fora: toda a sua sensibilidade é dirigida para os outros.
     *O tipo quatro orienta para dentro: toda a sua sensibilidade é vivida internamente.
     *O tipo três tem essa energia bloqueada (para compensar, privilegiou a inteligência prática).

INTELIGÊNCIA RACIONAL: 5 - 6 -7
- Predomina a habilidade para observar, analisar, refletir e tomar decisões.
- A energia principal é a razão, capacidade intelectiva-cerebral.
- São tipos retraídos, que recuam. O medo perpassa as pessoas deste centro.
- A preocupação principal é entender.
- A sensação profunda é de incapacidade perante  o mundo que os rodeia (perigos, sofrimento...).
- Cada tipo tenta compensar o medo e a incapacidade de um jeito próprio:
     *O tipo cinco tenta entender tudo, achando que assim será capaz de enfrentar a realidade.
     * O tipo seis busca seguranças externas para enfrentar os perigos.
     *O tipo sete supera o medo refugiando-se no mundo da imaginação e enefeitando os problemas.
- Cada tipo orienta a energia própria do seu centro de um modo diferente:
     *O tipo cinco orienta para fora. Mesmo isolado, sua reflexão é para entender o mundo `sua volta.
     *O tipo sete orienta para dentro: embora seja extrovertido, sua capacidade racional se manifesta no planejamento e na criatividade, que são atividades voltadas para si mesmo.
     *O tipo seis tem essa energia bloqueada (para compensar, privilegiou a energia emocional).

INTELIGÊNCIA PRÁTICA: 8 - 9 - 1
- Predomina a habilidade para agir, fazer coisas.
- A energia principal é a agressividade-impulsividade.
- São tipos de ação, dinâmicos.
- Sua preocupação principal é dominar e controlar.
- O poder é algo importante para estes tipos.
- A sensação profunda é de insignificância.
- Cada tipo procura compensar esta sensação dolorosa de um jeito próprio:
     *O tipo oito procura dominar o mundo à sua volta para sentir-se importante e faz as coisas para se afirmar.
     *O tipo nove omite-se e esconde-se para não experiementar novamente a sensação dolorosa e usa a teimosia para se afirmar.
     * O tipo um preocupa-se com o auto-controle para se afirmar através do bom comportamento.
- Cada tipo orienta a energia própria do seu centro de um modo diferente:
     *O tipo oito orienta para fora: controlando o mundo à sua volta.
     *O tipo um orienta para dentro: mantendo o auto-controle e a disciplina interna.
     *O tipo nove tem essa energia bloquedada (para compensar, privilegiou a inteligência racional.

Fonte: Material do Curso de Eneagrama Shalom

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

As origens do Eneagrama

Eneagrama é um instrumento que propõe nove Tipos ou estruturas de personalidade. Acumula uma tradição oral de cerca de 4.500 anos, que nas últimas décadas vem sendo resgatada, com sinais de grande potencial de ajuda. Situa-se como proposta de ponte entre a Psicologia e a Espiritualidade. É uma tipologia dinâmica, aberta ao crescimento, que se coaduna com as descobertas das grandes escolas psicológicas da atualidade, integrando-as e indo além delas, num esquema que consegue conjugar profundidade e simplicidade de compreensão. É um instrumento de auto-conhecimento e sobretudo um caminho de crescimento! Aqui reside sua especial riqueza: além de ser uma chave de leitura para a pessoa se entender, ele aponta pistas concretas de amadurecimento, ajudando cada pessoa a desenvolver suas potencialidades e a lidar melhor com seus pontos fracos. Não promete milagres. É um mapa claro que indica o caminho mas não substitui o esforço pessoal. Nenhum Tipo é melhor que o outro. Todos têm potencialidades fantásticas e todos têm tendências negativas. Tudo depende do amadurecimento. Não há julgamento moral: as tendências são geralmente inconscientes e devem ser encaradas naturalmente como humanas.


O que é Eneagrama?

"Eneagrama" é uma junção de dois termos (Enea=Nove; Grama=esquema, gráfico). É tradicionaimente representado por um círculo com uma estrela de nove pontos, referindo os nove tipos de personalidade que considera. É um siste­ma dinâmico, pois não considera a pessoa humana presa a determinismo ou a esquemas fixos. Respeita a singularidade, a originalidade e as peculiaridades do indivíduo, numa perspectiva de mudança e libertação do determinismo. É um dos poucos sistemas que se preocupam com o comportamento normal e elevado, mais do que com o comportamento doentio.

Condensa uma grande sabedoria psicoló­gica, num modelo compacto e fácil de compre­ender, situando-se numa perspectiva de ponte entre a psicologia e a espiritualidade. Enquanto a psicologia procura responder ao "Por quê", a espiritualidade dá resposta ao "Para onde"... O Eneagrama integra estas duas dimensões fundamentais da pessoa humana. É seu primeiro objetivo ajudar a pessoa a se conhecer, a se entender, a ter clareza da estrutura de sua personalidade, com suas energias, suas compulsões, seus valores e potencialidades. Num segundo plano, ajuda a pes­soa a compreender os outros como eles são e não a partir do nosso ponto de vista. Além disso, o Eneagrama propõe, para cada tipo de personalidade, um caminho pró­prio de crescimento-integração-amadurecimento, numa relação interna dinâmica que pressupõe um movimento da pessoa até os outros Tipos de círculo.

Se cada ser humano é único... pode parecer odioso querer encaixá-lo em categorias. O Eneagrama respeita esta individualidade sagrada de cada pessoa, pois considera um vasto campo de diversos níveis de crescimento, apresentando-se como um meio confiável para traçar um mapa de quem somos e para onde vamos, de maneira a não nos perdermos no caminho.

É um sistema que se manteve vivo... porque funciona: uma psicologia funcional da persona­lidade, precisa e prática, teoricamente completa e elegante, segundo o parecer de Richard Riso, psicólogo e terapeuta, um dos maiores espe­cialistas do Eneagrama.

Ao entrarmos em contato com o Eneagrama, temos a consciência de que começamos um processo sério, fascinante e ao mesmo tempo atemorizante, como a toda viagem à descoberta de nós mesmos.




Retirado do site: http://www.eneagramashalom.com.br/